[Terças de Negócios] Inovações Tecnológicas e Sociais: Desafios para o Século XXI

A globalização dos mercados tem trazido oportunidades e ameaças para as empresas, independentemente de seu porte. Assim sendo, a competição empresarial no âmbito global ampliou-se de maneira expressiva e relevante nos últimos anos. Aliado a isso, o processo de globalização ou o processo de mundialização como defendem alguns sociólogos como Alain Touraine tem demarcado uma nova era para a sociedade.

Alinhado a esse cenário, o surgimento de novas concepções de negócios, a exemplo das incubadoras de negócios e dos parques tecnológicos. As referidas novas concepções de negócios têm sido importantes promotores de inovações para a sociedade. Assim sendo, destaca-se que a inovação tecnológica é considerada um condutor do desenvolvimento econômico (ARCHIBUGI e COCO, 2004; BAUMOL et al., 2007). Ela ocorre, essencialmente, quando as organizações desenvolvem, através de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), novos produtos para o mercado (WINTER, 1988).

A probabilidade da organização criar avanços tecnológicos está, entre outros, em função dos níveis tecnológicos atingidos previamente pela mesma (DOSI, 1988). Mas, a inovação tecnológica não é oriunda da simples adaptação da tecnologia corrente. Com a concorrência de mercado e a rápida difusão da tecnologia, a inovação tecnológica pode surgir a partir da tecnologia criada na fronteira do conhecimento, oriunda da pesquisa científica em seu estado-da-arte (DOSI, 1988).

Inúmeras são as oportunidades de aplicação da tecnologia e da possibilidade de que essa aplicação se torne uma inovação. Entretanto, é fato de que pouco tem se discutido em termos de inovações sociais na seara das organizações. Dessa maneira, a distinção entre inovação tecnológica e inovação social nem sempre é clara. Nesta ótica, a inovação social implica sempre uma iniciativa que escapa à ordem estabelecida, uma nova forma de pensar ou de fazer algo, uma mudança social qualitativa, uma alternativa, ou até mesmo uma ruptura face aos processos tradicionais vigentes. Dessa forma, a inovação social surge como uma missão ousada e arriscada (ANDRÉ e ABREU, 2006).

Quanto à definição de inovação, Nelson e Rosenberg (1993) a descrevem como o processo pelo qual as organizações adquirem ou colocam em prática novas tecnologias em produtos ou serviços, agregando valor social ou riqueza. Com isso, a inovação tecnológica algo tecnologicamente novo para a organização e para o mercado, construído a partir do conhecimento em estado-da-arte, e não somente a partir do rearranjo de tecnologias correntes. A inovação tecnológica desencadeia, intrinsecamente, toda uma série de transformações, que ultrapassam os limites tecnológicos propriamente ditos, difundindo-se em novos processos e produtos e afetando os hábitos e costumes sociais institucionalizados em toda a sociedade (CONCEIÇÃO, 2000).

As diferentes formas de conhecimento – empírico e científico –, uma vez que adquirem uma forma concreta de uso e/ou de aplicação, assumem outro status. O conhecimento empírico, que é aplicado, é essencialmente uma técnica ou ação, e o conhecimento científico, que é a produção de conhecimento para melhor entender a técnica, constitui uma tecnologia. Em outras palavras, a tecnologia é a execução de uma ação que foi aperfeiçoada pelo conhecimento. Em geral, o surgimento de uma tecnologia ocorre pela necessidade do homem em ultrapassar um tipo de obstáculo, como a falta de força, precisão ou mais conhecimento (ZAWISLAK, 1995).

No âmbito da das organizações, a tecnologia é a utilização de uma técnica para preencher uma lacuna de mercado identificada previamente pela organização. Para garantir o funcionamento de uma atividade produtiva, é necessário justamente utilizar uma técnica ou uma tecnologia. Mas, para estar adequada ao objetivo desejado, esta atividade deverá ser capaz de encontrar meios de evoluir continuamente, acompanhado a evolução do mercado. Então, o desenvolvimento da atividade se dá através de modificações feitas nas técnicas e nas tecnologias, o que, em última análise, significa modificação na base dos conhecimentos empíricos e científicos.

Assim sendo, a sociedade em geral, bem como, a academia ainda tem explorado a inovação tecnológica e seus impactos, mas ainda não possibilitando com isso uma análise mais profícua das inovações sociais que vem ocorrendo em nossa sociedade, promovidas pelas organizações. Nesse sentido, abaixo abordamos um pouco sobre inovações sociais.

A partir dos anos 80, os cientistas sociais têm debatido os problemas da visão econômica sobre o processo inovativo e uma das questões centrais repousa nas relações que se estabelecem entre desenvolvimento e inovação. Toda inovação implica necessariamente em desenvolvimento? Ou inversamente: a concepção vigente de desenvolvimento econômico e social pode servir de parâmetro para se avaliar processos inovadores? Essas são perguntas que de diferentes formas têm instigado os cientistas sociais,  filósofos interessados e uma boa gama de empresários na problemática da inovação tecnológica.

O termo “inovação social” é utilizado por certas abordagens das áreas de Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas, principalmente com a intenção de fazer referência a mudanças sociais que visem à satisfação das necessidades humanas (MOULAERT et al., 2005). O autor aponta que mesmo Joseph Schumpeter, considerado o pai das análises de inovação na economia, já havia considerado a natureza “social” de uma inovação e a necessidade de inovações sociais para garantir a efetividade econômica das organizações, estando estas paralelas às inovações tecnológicas.

Constata-se que o caráter tecnológico de uma inovação não seria suficiente para acarretar mudanças significativas na sociedade, tendo o elemento humano um importante papel na disseminação e na apropriação de inovações, inclusive tecnológicas. Já Cloutier (2003), pesquisadora do CRISES (Centre de recherche sur les innovations sociales), afirma que os primeiros autores a usarem o termo “inovação social” foram Taylor (1970) e Gabor (1970).

Ainda, os interesses econômicos acompanham, mas não determinam o rumo da inovação. O conceito de ambientes de inovação representa um enfoque diferenciado acerca das possibilidades de construção da prática da inovação, visando articular tecnologia, economia e vida social de uma maneira diferenciada e aberta, distante do padrão que relaciona a inovação tecnológica exclusivamente ao setor produtivo (Maciel, 2001). Pontualmente, comunga-se da definição de Oeij, Kraan e Vaas, (2010), na qual apontam que a inovação social envolve várias inovações não-técnicas que são consideradas complementares à inovação tecnológica.

Independentemente de quem, quando e porque tenha começado a fazer referência a esse conceito, a discussão acadêmica a respeito das inovações sociais perpassa diversos campos de pesquisa, atende aos anseios de melhor entendimento das relações e serve aos propósitos da pesquisa que embasa o presente artigo. Entretanto, cada abordagem utiliza sua própria definição, explorando diferentes relações com os atores dentro de um processo de relações sociais mais amplo. Muitas são as percepções acadêmicas acerca do tema, sendo que na Figura 1 abaixo, esboçam-se algumas das visões mais aceitas atualmente:

Abordagem

Conceito de inovação social

Stanford Social Innovation Review Uma solução nova para um problema social ainda mal-resolvido e que é mais efetiva, eficiente e sustentável do que aquelas então existentes e por meio da qual o valor que é criado se reverte em benefícios para a sociedade como um todo, ao invés de se restringir a ganhos particulares.
Ciências da Criatividade e Artes Corresponde à geração e implementação de novas idéias sobre como as pessoas devem organizar as atividades interpessoais, ou as interações sociais, para atender a um ou mais objetivos comuns. Tal como acontece com outras formas de inovação, os produtos resultantes da inovação social pode variar em relação à sua amplitude e impacto.
Desenvolvimento Territorial Aquela que visa à satisfação das necessidades humanas, por meio da promoção de mudanças nas relações sociais principalmente no que se diz respeito às diferentes formas de governança, aumentando o nível de participação dos membros de uma sociedade e aumentando a capacidade sócio-política dos cidadãos e o acesso aos recursos que sejam necessários para atender às necessidades humanas quanto à participação social.
RQiS – Le Réseau Québécois en Innovation Sociale Qualquer abordagem de intervenção prática, ou qualquer outro produto ou serviço inovador ou diferente, que encontre espaço nos níveis institucionais, organizacionais ou das comunidades, e cuja execução resolva um problema, satisfaça uma necessidade ou uma aspiração social.
Observatório de Inovação Social – Fundação Getúlio Vargas – Brasil É a capacidade de transformar as relações de poder no campo social, o que implica na expansão da cidadania e na redução da exclusão social, a construção de novos sujeitos públicos; a transformação das práticas e processos de gestão pública; e o desenvolvimento de novos instrumentos e novas metodologias de planejamento, tomada de decisões, implementação e avaliação de políticas públicas.
CRISES – Centre de recherche sur les innovations sociales Um processo iniciado pelos atores sociais para responder a uma aspiração humana, suprir uma necessidade, trazer uma solução ou aproveitar uma oportunidade de ação, na intenção de mudar as relações sociais, de transformar um quadro de ação ou de propor novas orientações culturais à sociedade.

Figura 1: Comparação entre diferentes abordagens que utilizam a terminologia “inovação social”

Fonte: Elaborada com base em Moulaert et al. (2005), EBAPE (2010), Mumford (2002), Rollin e Vicent (2007), CRISES (2010) e Phills JR. et al. (2008).

Frente a uma rápida clarificação dos conceitos de inovação tecnológica e social, destaca-se a grande dificuldade de se reinventar as organizações a todo momento. Nesse interim, acredita-se que o presente artigo auxilia na ilustração conceitual para os tomadores de decisão das empresas.

Artigo escrito por Jonas Venturini, sócio da Bruke Investimentos

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