[Terças de Negócios] Congregando Interesses Empresariais e Interesses Coletivos: uma Reflexão à Luz da Nova Economia Institucional e Dos Custos de Transação

Congregando Interesses Empresariais e Interesses Coletivos: uma Reflexão à Luz da Nova Economia Institucional e Dos Custos de Transação

Jonas Cardona Venturini
Sócio da Bruke Investimentos

Ao se analisar a Economia Institucional destaca-se seu caráter enfático como um estudo abrangente das instituições, na qual considera o mercado um resultado da interação complexa dessas várias instituições (e.g. indivíduos, firmas, estados, normas sociais). Não obstante, essa corrente do pensamento econômico incitou novas possibilidades de análises dos fenômenos econômicos, sem perder o eixo estrutural que a pautou, a exemplo da Nova Economia Institucional.

Nesta linha de raciocínio, a corrente de pensamento da Nova Economia Institucional delimita o seu escopo de análise teórica a partir das contribuições da Teoria dos Custos de Transação (TCT). A Teoria dos Custos de Transação, ou, também denominada Economia dos Custos de Transação tem uma trajetória de desenvolvimento teórica marcada por duas obras principais. A primeira delas, reconhecida como a obra originária, é o artigo de Ronald Coase na revista Econômica, em 1937, intitulado The Nature of the Firm. E a segunda é Markets and Hierarchies: analysis and antitrust implications, livro de Oliver Williamson, publicado em 1975. Com essas obras, ambos os autores foram laureados com o prêmio Nobel de Economia, Coase em 1991 e Williamson em 2008.

Corroborando com a discussão que vem sendo estabelecida, Coase (1937) argumenta que sua teoria encaixa-se na abordagem tradicional de análise da firma e pode ser operacionalizada pelo instrumental marginalista, na qual defende que os desenvolvimentos da micro economia neoclássica neste longo intervalo de tempo não levaram em conta suas ideias. Seu trabalho, como ele próprio diz, é muitas vezes lembrado, mas não lido com a devida atenção.

Assim sendo, na década de 70, Williamson retoma a ideia de Coase, sobre a qual vai trabalhar com o objetivo de construir uma teoria da evolução das firmas. Com Markets and Hierarchies. (WILLIAMSON, 1975), apresenta a ideia básica do modelo econômico que estava a desenvolver: mercados e hierarquias são formas alternativas de organizar a produção capitalista, estando o tamanho da firma limitado à sua capacidade não só de produzir um bem com menores custos que aqueles incorridos na produção automatizada do mercado, mas em ter menores custos, somados, de produção e de transação que correspondem aos demais custos incorridos na passagem do bem entre interfaces tecnologicamente distintas.

Seus trabalhos afluem para The Economic Institutions of Capitalism, publicado em 1985, muito embora já tenham influenciado outros autores a buscar tanto aos desenvolvimentos teóricos incrementais como meios de operacionalização e estudos de caso para a sua teoria, como por exemplo, os estudos de Granovetter; Barney e Hesterly; Sandler, entre outros. Nela, o enfoque da TCT é utilizado para explicar o desempenho de diversas instituições capitalistas, e em particular o movimento dos limites da firma. Reunindo trabalhos publicados na década que se passou, Williamson lança o que considera a última peça de sua trilogia, The Mechanisms of Governance (WILLIAMSON, 1996).

Williansom baseia as suas contribuições da TCT acerca de premissas centrais, tais como a racionalidade limitada, a assimetria de informação e o oportunismo, sendo que resume o oportunismo, a um comportamento como mentir, roubar, lograr, formas sutis de enganar, revelar informação de forma distorcida ou incompleta, ofuscar e confundir. É conveniente lembrar que não são todas as pessoas que se comportam de maneira oportunista o tempo todo, mas sim algumas e em algumas vezes, o que, mesmo desta forma, pode ser um grande problema para o desenvolvimento das redes.

Os custos de transação também são influenciados pela especificidade dos ativos, frequência das transações, incerteza e complexidade do ambiente e quantidade de agentes envolvidos na transação. Os atores econômicos irão escolher a estrutura de governança (mercado, híbrida ou hierarquia) capaz de reduzir possíveis problemas transacionais, criados pela racionalidade limitada, de um lado, e pela ameaça do oportunismo, do outro, a um menor custo. A Figura 1 apresenta com propriedade as diferentes estruturas de governança mencionadas.

Figura 1: Custos da estrutura de governança e especificidade de ativos

transacao

Fonte: Williamson (1991), adaptado pelo autor

Por estrutura de governança, entende-se que os atores econômicos irão escolher a estrutura de governança (mercado, híbrida ou hierarquia) capaz de reduzir possíveis problemas transacionais, criados pela racionalidade limitada, de um lado, e pela ameaça do oportunismo, do outro, a um menor custo. Ainda no que se refere à estrutura de governança, a referida estrutura híbrida por mais que se deem créditos acadêmicos a Williamson no que se refere à forma híbrida entre mercado e hierarquia, deve-se a Thorelli, no seu artigo em 1986, a aproximação do conceito da forma híbrida de Williamson com os estudos de relacionamentos interorganizacionais. É bem verdade que no estudo original de Thorelli (1986), o autor ainda enquadrava os diferentes relacionamentos interorganizacionais como redes de empresas. Somente nos dias atuais é que a classificação está mais clara para os acadêmicos e pesquisadores. Para Thorelli, a forma híbrida passava por um processo cooperativo entre empresas.

Nessa altura da discussão e dado um esclarecimento sobre qual lente de análise será pautado esse artigo, retoma-se o argumento inicial que era: a nova economia institucional e o papel das instituições: os interesses das empresas não podem conflitar com os interesses coletivos. Diante do explicitado e ancorado no arcabouço teórico da Teoria dos Custos de Transação, defende-se o papel de uma estrutura híbrida para o entendimento e para a convergência dos propósitos organizacionais/empresariais e coletivos.

Incutido no argumento de Thorelli, uma das formas de estruturas de governança que emerge na estrutura híbrida é a governança de rede. Segundo Candance, Hesterly e Borgatti (1997, p. 914) governança de rede:

“(…) implica a existência de um grupo específico, persistente e estruturado de empresas autônomas (bem como agências sem fins lucrativos) envolvidas na criação de produtos ou serviços baseados em contratos implícitos e abertos, em condições de se adaptar às contingências ambientais e coordenar e salvaguardar as trocas. Tais contratos são elos de ligação sociais e não legais”.

Para Fombrun (1982), redes são como um conjunto de nós interconectados, possibilitando que esse conceito amplo seja utilizado em diversas áreas do conhecimento. Nohria (1992) afirma que embora não constitui uma ideia recente, visto que o conceito de rede é empregado na teoria organizacional desde o começo do século XX, a união de empresas com o objetivo de obter soluções coletivas, que individualmente seriam impossíveis, vem recebendo uma maior atenção dos estudos e práticas organizacionais nas últimas décadas.

Nesse contexto, as empresas possuem um sentido de pertencer a um grupo, com a existência de processos de seleção, com relações de cooperação duradouras e, em grande parte, mantidas por vínculos sociais e não contratuais, o que não significa que estes dois aspectos são excludentes. Para entender o processo de governança, é necessário considerar a dimensão da estrutura desse novo tipo de configuração organizacional e a dimensão da ação coletiva. No caso das redes de empresas, a governança e os seus mecanismos são condições sine qua non para sua existência, especialmente porque a existência de uma rede acena com relações de cooperação de longo prazo. Uma afirmação básica da teoria do custo de transação é que mercados e hierarquias são instrumentos alternativos para completar um conjunto de transações, e, como tais, são frequentemente chamados “mecanismos de governança”.

A globalização dos mercados tem trazido oportunidades e ameaças para as empresas, independentes de seu porte. Assim sendo, a competição empresarial no âmbito global ampliou-se de maneira expressiva nos últimos anos. Por muito tempo a competição dominou o comportamento das firmas e não só representou o combustível para a prática da gestão estratégica como também estimulou a maioria dos ensaios acadêmicos no campo da estratégia. Competir significava lutar contra adversários que deveriam ser derrotados ou eliminados.

Nohria apontou três razões para o aumento do interesse no tema “redes de empresas”: a) a emergência da “nova competição” como está ocorrendo nos distritos industriais italianos e no Vale do Silício. Se o “velho” modelo de organização era a grande firma hierárquica, o modelo da organização considerada característica da “nova competição é a rede de inter-relações laterais intra e inter-firmas; b) o surgimento das tecnologias de informação e comunicação (TICs) tem tornado possível uma maior capacidade de inter-relações entre firmas dispersas; e c) a consolidação da análise de redes como uma disciplina acadêmica, não somente restrita a alguns grupos de sociólogos, mas expandindo para uma ampla interdisciplinaridade dos estudos organizacionais.

Sob a égide do olhar empírico, destaca-se a constituição do Programa Redes de Cooperação da antiga Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais (SEDAI), hoje abrigado na Secretaria da Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa (SESAMPE) no ano 2000. O programa vem implementando com certo grau de sucesso a cultura das redes de micro, pequenas e médias empresas. A despeito disso, no final do primeiro ano do programa, 7 redes foram formadas. Passados cinco anos, esse número passou para 120 redes de cooperação em todo o estado, ao final de 2007 mais de 130 Redes haviam sido lançadas contendo um número de aproximadamente 3000 empresas trabalhando sobre a égide da cooperação.

Ainda, o Programa do Estado do Rio Grande do Sul Redes de Cooperação, através da SEDAI (2010), hoje SESAMPE aponta que no somatório de atividades desde seu início no ano 2000, o Programa constituiu e apoiou mais de 220 redes de cooperação, com um total de 4.700 empresas integradas, gerando e/ou mantendo mais de 61.100 postos de trabalho diretos e alcançando em conjunto um faturamento anual superior a R$ 5.000.000.000.

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