Pensamento de final de semana: Ela tem um cachorro

ELA TEM UM CACHORRO

Daletra

Ela tem um cachorro e nós nos damos bem!…

É um são bernardo que mora no quarto do apartamento. É meio estranho isto, não?!

Eu gosto de cães, só não gosto do cheiro, dos pelos, quando latem, quando sobem na cama, quando comem e a gente chega perto sem querer, mas quando você interage com alguém (alguém?!), acaba surgindo ou não uma (in)certa empatia, nem que seja com uma nesga de animosidade. Então, por questões circunstancias e com uma nesga de animosidade: “- Nós nos damos bem”.

O regulamento do condomínio admite. Soa meio estranho, também, não?!…

Geralmente animais – do tamanho de um são Bernardo – ficam no apartamento junto dos elefantes da discovery – dentro da TV, mas ela foi uma das primeiras moradoras do prédio e a primeira síndica e ai a história começa a se explicar.

Namorar uma síndica, também e também é muito estranho!…

Porque as síndicas são senhoras casadas ou são feias e chatas que é a única qualidade apreciável em uma síndica. Síndica ou sindico que não é chato, o prédio vira uma bagunça.

O prédio é novo, tem apenas três anos e ela é veterinária e hoje não é mais síndica. Talvez ainda continue a ser um pouco estranho o são bernardo no apartamento, mas certamente você vai achar muito mais estranho a banda de rock ensaiando aos sábados na cobertura.

Na cobertura mora um grupo de médicos residentes. Eles têm uma banda de rock. Tocam até bem. Eu gosto de rock. Eles também estão entre os primeiros moradores do prédio.

Bom, o que quero dizer é que o que parece estranho, não é tão estranho, porque há um certo corporativismo no regulamento do condomínio.

– continua –

[…]

Quando eu a conheci ela era médica ou era enfermeira ou era farmacêutica ou era fisioterapeuta, massoterapeuta ou “outraterapeuta” ou, ainda, dava passe em centro espírita. Tinha tudo pra ser qualquer coisa dessas porque ele usava um guarda-pó branco – nunca pensei que um guarda-pó pudesse vestir tão bem uma mulher – e não tinha cheiro de cachorro e quando ela falou que era o que é, pensei que não levasse serviço pra casa. Como cachorro não é filho, ela achou por bem não falar nada dele até o dia – a noite – em que fui até o apartamento.

“- Olha…ic!… tenho que te dizer uma coisa, eu não moro sozinha, mas não dá bola pra isto, tá?… ic!…”

È difícil saber o que há dentro do coração de uma mulher, mas saber o que passa na cabeça de um homem?! Tem que ter muita imaginação:

“Ela mora com uma amiga ….hummmm… que…icdelícia!” – Mas aí apareceu  o Rock.

Pulou nos braços dela com uma língua deste tamanho e me deu uma sensação de final de filme infantil. Deu até um sentimento de culpa de estar ali pensando… Não pensando em cachorro.

Cachorro é igual criança e antes que vocÊ mal me compreenda, os animais, eles têm uma parte muito humana. São também levados a agir por instinto, o que faz com que seja injusto dizer que “sujeito é um animal”. Injusto com os seres humanos de verdade e com os animais que sempre são de verdade. Mas cachorro é igual criança porque criança pára, olha e sabe se você gosta ou não dela. O Rock parou, olhou e avançou e não foi com a língua, mas ela deu um jeito, porque ela é veterinária e sabe lidar com bicho e é por isto que ele não me mordeu… E daí…

…e daí eu vendi a moto…

– continua –

[tempo…]

É verdade. Eu vendi a moto que rodava trezentos quilômetros todos os sábados… Todos os sábados… Todos os sábados… Sempre tive moto, mas vendi a moto. Por quê?! Peguei o dinheiro da moto, o carro e dei de entrada numa pick-up. Apostei num relacionamento de 36 meses com juros. Só assim o Rock não andava mais no banco detrás do carro.

Quando você namora uma mulher que tem um cachorro, você não tem uma namorada, tem uma família e não há algo mais ridículo do que um homem andar com uma mulher que tem um cachorro – um cachorro do tamanho do Rock. Porque o cachorro é o melhor amigo do homem, não da mulher do homem. Por sinal, este papinho de que mulher tem um melhor amigo “deste tamanho”, não cola. Nem que seja o Rock! Meu melhor amigo me disse:

“- Você, ela e o Rock?! …Não vai dar certo” – Até ele já tratava o bicho como se fosse alguém da família (família?!) “- Dá o fim nele. Ela já é veterinária. Trabalha com um monte de cachorro. Imagina se o negócio vai pra frente e o cachorro tem que mudar para o teu apartamento?! Imagina acordar com um cachorro todo dia?!(…)”

No meu prédio não pode cachorro. O regimento interno não permite. Não permite bicho algum, apenas peixes e cágados e “análogos” que reputo serem aqueles animais que não fazem barulho, não tem cheiro e podem ser mortos com apenas um pisão. “O Rock não vai morar no meu prédio”.

“(…) – …Vendeu até a moto! Dá o fim neste cachorro (…)”

Discutir com ela sobre Rock seria discutir o relacionamento – e nenhum homem gosta disso – afinal, somos uma família e ela sempre teve cachorro, desde criança.  E, sabe?! Tenho que dar o braço a torcer. Mulher que gosta de cachorro é uma boa namorada. Até o abraço é diferente.

“(…)- Me diz se tem alguma mulher aqui neste bar que tem cachorro. Tá vendo a japinha lá na mesa com a loira? Tu acha que alguma das duas tem cachorro?”

Ele está namorando a Silvia que é funcionária pública e gosta de plantas e de vestidos. Os dois foram jantar lá em casa – no apartamento do Rock. Dali em diante as duas ficaram amigas – as adversas – e o meu amigo saiu reclamando do cheiro de cachorro até na comida.

“(…) – Quem tem cachorro, tem casa. Quem tem casa, tem cortina e televisão de plasma e um sofá grande. Quem tem tudo isto, tem criança. O cachorro é um mal pressagio. Mata ele!”

O problema maior até não é o Rock, é a pick-up. Pick-up é ruim pra tudo. Pra começar, não é moto. Dá oficina, o seguro é caro, é ruim de estacionar. Eu não sei estacionar nem mexer em motor de pick-up. A moto eu montava e desmontava… e não foi feita pra estacionar. Foi feita para ir longe e bem rápido.

“(…) – Dá veneno pra ele. Joga da pick-up. Acidente acontece!… Degreda… O cachorro tá atrapalhando. Tá atropelando as coisas. …Peraí… A loira tá olhando pra ti….faz uma cara de cachorro pra ela….em dez uma não tem o dedo podre…”

O problema maior é a pick-up, mas o problema mesmo é o Rock. Se não fosse ele não teria vendido a moto, não estava pagando juros pra banco, não tinha que ter alugadas duas vagas de estacionamento e não estava aqui dependendo de carona pra ir pra casa, porque eu vim de taxi…o trânsito é horrível de pick-up.

“(…) – Vou dar carona e uma chácara. Porque tu tem uma “pick-up grande” com uma “caçamba grande” e tem um “cachorro grande” virou o “tio chacreiro”… Ei, manda mais dois chopes que o meu primo veio da roça me visitar!!!…Gostei da japinha…toca celular…Silvia, socorroooo!!”!

Eu não acredito que vendi a moto…o Rock não tem jeito, mas a pick-up, tem. “– Chega de chope. Me leva em casa…

– continua –

[Três meses depois…]

A moto me fazia falta aos sábados, mais ainda quando escutava os médicos ensaiando na cobertura  – rock e moto, tão ali pra li um com o outro. Daí era abrir umalong nec e ficar na sacada escutando: “Booooor tchubi uaaaaaii”. De vez em quando passava uma moto e o Rock latia, porque cachorro é inocente igual a uma criança. Se convenceu que eu era do bem, mas a minha vontade era jogar ele pela sacada. Porém, o fato de ele latir quando passava uma moto revelava que ele não sabia falar, mas sabia que moto, dentro do apartamento, era um assunto sério – cachorro era um assunto sagrado, um assunto proibido.

Quem tem uma moto transa com a moto e dura bem mais que quinze minutos e transa com ela de quatro é só olhar o motoqueiro e a moto. Sexo é importante o que faz de uma moto, algo fundamental. Alguns não gostam de moto…outros, de mulher…eu só não gosto de cachorro….e daí?!…”Cada fruta tem um gosto, cada gosto um prazer e prazer leva a gozo e o gozo a mais querer! Vou comprar uma moto!!”

[…mas o tempo….o tempo é foda…me perde a expressão]

“Amor…dá uma decidinha com o Rock que tá na hora dele”.

“Amor…tirá o Rock de cima da cama e tira também os sapatos”

“Rochezinho, vem cá que eu to com ciúme”

O tempo forma, conforma ou deforma as coisas! Assim descobri que eu era algo que tinha sido o que foi e que não é mais. Um “ex”. E você pode ser “ex” de tudo menos de você.

Sorte, então, o prédio ter elevador!

– continua –

[Um pouco mais de tempo passando]

Estava descendo pelo elevador para o trabalho com a camisa cheirando a perfume. Isto, porque você se acostuma com o cheiro de cachorro, mas os clientes, não.  Encontro o meu vizinho médico, um dos que moravam na cobertura. Ele me cumprimenta:

“- Opa, tudo bom? Tá morando aqui no prédio agora?”

Eu não estava morando no prédio, na verdade eu estava morando em dois prédios.

“- Não… minha namorada mora e de vez em quando eu tô por aqui. E a banda?!… Não ouço mais vocês tocarem no sábado…”

“- Síndico novo… Mudou o regimento do condomínio… agora a gente te quem ensaiar fora… só que dá muito trabalho levar e trazer os equipamentos… bom era no tempo da tua namorada… e o Rock,.como é que tá?… “ – Acabou sem querer escapando. Escapando que os dois foram namorados e que ele havia dado de presente o Rock para ela. Um presente grego, já que cachorro atrapalha qualquer relacionamento. E aí, então, vai a dica – algo pérfido – para quem não gosta muito da futura “ex”: ”– Dê um cachorro de presente para ela, enquanto há tempo!”.

Pode parecer que um cachorro não tenha o seu cabimento em um relacionamento ou que os homens odeiam cachorros. Não é bem assim. Inclusive, já houve uma pesquisa séria e reveladora a respeito. Como pesquisa é algo chato, pule o próximo parágrafo.

Três entre dez homens opinaram que o seu melhor amigo é o dinheiro e que comprariam um cachorro para ter no quintal por conta de segurança e dos filhos. Um disse que é o cachorro e que o trabalho é o que há de mais importante na vida, que criança dá trabalho, que nunca ajuda com a louça, e que gosta das coisas muito bem organizadas. Um não opinou porque estava na academia trabalhando o abdome, mas ao ler a pesquisa disse que um cachorro atrapalha porque a maior parte das mulheres não cuida do corpo como devia. Um ficou indeciso porque achou que um homem que tem um cachorro não é de se jogar fora –  e isto soou estranho aos outros pesquisados. Um disse que era feliz no casamento, porque a sua secretaria é que tinha um cachorro. Um não sabia opinar, porque não sabia direito o que é um cachorro e tinha que ir embora porque sua mulher ia ligar. Um disse que estava pensando em comprar um cachorro, porque a sua esposa tem um amigo(!) que tem um cachorro. Um não quis opinar – meu melhor amigo – porque com tanta mulher no bar não havia porque ficar falando de cachorro. O último, disse tão somente que a melhor amiga de um homem é uma moto (advinha quem!).

[Voltando para o elevador]

…mas gostei do rapaz. Boa conversa e, sobretudo, bom de negócio. É!!! Bom de negócio!!! Ora:

“- Vendi a pick-up pra ele!”…

…Para levar os equipamentos da banda até a chácara do tio chacreiro (dele!) onde eles ensaiavam. Ante então eles tinham que usar três carros.

– continua –

[Uma ou duas ou três semanas passam, ou talvez não tenha sido nem isto…]

Como disse, vendi a pick-up. Sim, vendi – ufa! Comprei uma moto – oba! – e transferi o financiamento para um carro – nem tudo é perfeito. Destes carros que todo ser humano que não tem uma chácara deve ter. Só não gostei da cor: Branca, mas tive que pegar o carro no negócio.

O Rock gostou. Voltou a andar no banco de trás. Eu gostei. Voltei a andar de moto no sábado. Ela, não gostou muito quando soube. Depois gostou pouco e depois menos… e menos ainda…e mais um pouco menos… até não gostar mais.

Resultado – ou como acabou a história:…

– continua –

[Resultado – ou como acabou a história]

“- Ficamos amigos…”

“Ficaram amigos?!…” – [ pergunta do leitor]

“Sim, amigos…”

“Ela e você?”

“Também” [Nota, eles ficaram amigos. A história é contada em primeira pessoa, porque eu não sei escrever na terceira pessoa]

– Continua só mais um pouco –

[Os amigos]

Ficamos amigos ela, eu, meu ex-vizinho que agora é médico, Silvia que está aqui do meu lado com um vestido que tira a atenção da noiva –  descobri que mulher que gosta de vestido é uma boa namorada, até o abraço é diferente – e o meu melhor amigo, que ia ser testemunha com a Silvia, mas não pode vir porque a Sue (a japinha) e a Ana (a do dedo podre) não concordaram em vir os três na cerimônia e eu sou a melhor testemunha para este casamento. Sim, sou…

[Agora, “o fim”].

– (…) aceita como….na …e na….e na…?

– Casamento é um saco…bem que podiam ter escolhido o domingo…

– …tira este cachorro de perto do meu vestido…

– Au!

– Quieto, Rock!…Quem diz sim é a noiva…

– fin…Au!-

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